Esquizofrenia e Câncer


 528198_574218469257666_961082425_n

Mesmos Genes?
Apresento uma frase de uma paciente de 17 anos que conheci há muito tempo.
A frase que ela me disse depois de levar mais ou menos uns 300 eletrochoques numa Clinica Psiquiátrica nos anos 70 no Rio de Janeiro, foi a seguinte
“O câncer é a esquizofrenia das células”.
Achei fantástica essa frase que me guiou sem eu mesmo me dar conta desde daquela época até agora.
A paciente, ficou um ano sem falar com ninguém depois dessa celebre frase que atribuiu à mim, até morrer.
Chegou a mim demenciada e atrás disto um resquício de esquizofrenia paranoide, que só apareceu depois de “curarmos juntos” sua demência ocorrida após do grande número de eletrochoques.
Isto pode merecer uma explicação se alguém se interessar. Ninguém na família da garota tinha tido câncer aliás eram todos de uma longevidade incrível. A família costumava “encolher” (ao invés de morrer) durante muitos anos até finalmente um dia morrer. Isto me faria pensar que tinham ido a Bulgária se tratar com a Dra. Ana, pois eram muitos ricos. “Conheci várias pessoas assim”.
Olhando agora para traz e fazendo relatos para mim mesma sobre os ultimas descobertas genéticas do câncer e vi que são óbvias. Sei desde pequena que câncer de mama passa de mãe para a filha. Como sabia que diabetes era a mesma coisa. Via a família de minha mãe morrendo de diabetes e a família de meu pai, apresentando loucura, doenças mentais as mais diversas. Não estou tergiversando, nem querendo me expor.
Como é genético não é dado a ninguém o direito de escolher seu DNA, do qual tomei conhecimento no segundo ano da Faculdade de Medicina. Tinha recém sido descoberto. Foi uma festa. Para mim fechou toda e qualquer duvida a respeito da “herança genética” que cabia a todas as pessoas da vila em que nasci.
Pai alcoolista, filho alcoolista, mãe com câncer, filha com câncer. Isto lacrou com selo de ouro meus conhecimentos infantis a respeito do que hoje se chama genética. Foi observação minha pois ia a todos os enterros da pequena vila, representando a família. Hoje sei o nome das doenças que mataram a todos, um por um. Na época nada sabia obviamente de câncer, cirrose, ou outra doença qualquer. Mas fazia minhas contas. Eu adoro o obvio.
Voltando a Esquizofrenia X Câncer de mama, vou relatar algo que nunca vi escrito mas parece que Freud teria dito que ninguém tem duas doenças graves ao mesmo tempo. Isto é: uma doença física e outra mental. Agora acho, que é obvio que o mental manda em tudo, na magreza, na gordura, no alcoolismo enfim qualquer coisa que se procure.
A neurociência nos explicará tudo melhor. Eu aguardo.
Tive um paciente esquizofrênico cuja mãe tinha câncer de mama “ela era jovem para ter esse câncer” que na época era morte certa e lenta. Isto aconteceu numa clinica onde estava a moça citada acima cuja mãe era sadia. Bem,para não entrar em delongas, como soe acontecer na família do psicótico, quando um melhora, o outro piora. O rapaz saiu do surto psicótico e a mãe cancerosa, só para chatear o Dr. Freud, surtou e acabou por morrer esquizofrênica com câncer. Proeza.
Acho que os pesquisadores fizessem clínica junto às Pesquisas, descobririam mais rápido o que os genes são capazes de fazer e de maneira muito rápida.
Já vi muitos “esquizofrênicos” colocando a esquizofrenia numa parte do corpo, como na gordura, obesidade.
Nem vou falar nos que em vez de terem um surto na adolescência “são mais sadios”, se “casam” com quinze, dezesseis anos até vinte , vinte e dois. Chamo-os de pessoas que se hospitalizaram uma no outro. Ficam “deslocando” a doença em vez de adoecerem mentalmente, fazem uma pseudo-família com filhos etc.
Separam-se aos 23, 24 anos, mas não tiveram o surto psicótico a que tinham “direito” pela genética.
Voltando a paciente da frase que me levou a fazer este pequeno trabalho eu queria dizer que a mãe, não sei de onde, não tinha antecedentes genéticos com a melhora da filha aos sessenta anos, teve um câncer no intestino. Tratada bem, viveu até os oitenta anos bem, quando uma teve uma recidiva do câncer de intestino, veio a falecer. A filha já bastante livre da esquizofrenia, morreu pouco tempo depois com câncer de estomago.
Estou poupando meus leitores colocando poucos casos clínicos. Tenho muitos outros iguais.
Agora tenho como técnica usual tratar do narcisismo auto destrutivo dos pacientes psicóticos com parentes cancerosos durante bastante tempo, espaçando consultas, pois enquanto mais idades tiverem, menos riscos de câncer grave ou sem cura.

Por Carmem Dametto
Médica psiquiatra, psicanalista e autora
carmemdametto@globo.com

 

Anúncios