Divagações sobre o matricídio


gravidez-de-gemeos

Relato imaginário de uma gêmea:

 

” Eu nasci dividindo o útero, a mãe, o pai e a irmã mais velha. Não foi fácil sobreviver a minha sensibilidade. Desde bebê era assim. Depois, ela, ainda me arranjou mais dois irmãos, eu não suportei.

Nessa hora, foi ele quem me acolheu. Cuidou de mim da melhor maneira possível, enquanto, ela me abandonou e foi viver em outra casa  e cuidar do bebê. Ela vivia cansada e nervosa, sobrecarregada dos filhos, da vida. Ela conseguia ser mais triste do que eu, e como isso me irritava. Tinha tanta raiva que chegava ao desprezo e a pena. Coitada, não sabe viver!

Destruiu a vida com mais filhos, abandonando a mim e também minhas irmãs. Eu odeio essa mulher. Que infelizmente, é minha mãe. Mas eu sinto como se não tivesse mãe. Ela nunca foi só minha mãe, nem por momentos.

Talvez eu esteja exagerando, mas o que eu sinto é exagerado. Eu me prometi que faria tudo diferente com minha filha, e mesmo experimentando a dificuldade que é mudar um gen, eu continuo tentando fazer melhor que ela.

Tenho medo de gostar dela, de tão maluca e inconsequente que é. É claro, que ela tem sua história e sua própria questão com a vida, mas eu não quero saber. Não quero fazer terapia, nem parar de sentir essa dor em mim chamada mãe.

Vou simplesmente, ignorá-la tanto, até que ela morra com o desprezo. Tenho quem me ame e me proteja, ele não sabe me dizer não, me aceita sem julgamento, vive pra me agradar e meu amor por ele é imenso. Isso me basta. Ele me dá tudo que preciso e mais.

E em completa inconsciência vou “matar” essa mulher e tirá-la do meu caminho, porque ela me abandonou, por isso eu não gosto dela…”

 

Por Sarah Aiku

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