Carta do luto


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Fazem 4 meses que ela expirou pela última vez.

A imagem dela expirando e emitindo o som de AH repetidamente, fixou em minha mente.

Ainda bem que eu estava no ouvido dela dizendo que estava tudo bem, repetidamente, possivelmente, para mim mesma e diante da total incapacidade de mudar o destino, fosse o meu ou o dela. Foi linda a sua morte.

Ela estava mais doce e amável do que quando nasceu, certamente estava mais sábia. Morreu porque perdeu o sentido, sua existência. Seu motivo de viver perdeu-se na Vida e para ela só sobrou a Morte

Que Ela encarou com a dignidade de uma jovem guerreira.
Ainda quero fazer um jardim de lírios brancos com suas relíquias, que guardo.

Agora, eu tenho tudo o que eu queria, quando ela estava viva: tempo.

Eu posso até transcedê-lo e aceitar sua nova presença sutil.

Tempo para perceber o quanto minha Mãe ainda vive em mim e através de mim.

Ela permanece Viva em mim.

Talvez, ela viva agora em outra dimensão e pode “ouvir” meus pensamentos e vice e versa…

É triste sob a perspectiva humana emocional sentir a perda. Nunca mais ouvirei a voz de minha mãe, nem poderei ver seu sorriso e receber seus beijos de beijoqueira.

Minha mãe era uma beijoqueira e adorava tirar fotos.

Ela brilhou com seu sol em escorpião até sua derradeira cena de morte, como ela sempre fez durante a Vida encarnada. Ela sabia que estava morrendo. eu também.

A impotência diante dessa Força tremenda da Vida e dá à Luz e ceifa a respiração, era atordoante.

Agora tenho tempo para percebê-la melhor. Já não tenho seus beijos, mas tenho a doçura que ela me dedicou nos últimos meses. Tive a honra de poder amá-la e conviver com ela até o Fim.

Tenho tempo para perceber e ponderar. Agora, depois de cinco filhos e uma mãe, que se foram de formas diferentes. Eu também já não sou a mesma. Coisas estão morrendo e nascendo em mim o tempo todo.

A impermanência, às vezes, cansa. O “luto” é parecido com esse cansaço.

É querer o que o Divino já não quer. É ser obrigado, por forças bem maiores, a aceitar a morte da mãe.

A Morte em Si. Em carne Viva.

Luto é um período de reflexão, de adaptação ao novo tipo de relacionamento com aquele ser tão próximo, em carne e osso, mas que atualmente é memória entre outros tipos de sutilezas.

A morte de quem se ama e se convive, é um desafio da Vida.

Esse foi o que percebi com sua morte. Minha mãe deixou-me um Desafio e um conselho:

SE CUIDA, MINHA FILHA, SE CUIDA…

Estou cuidando, mãe. No momento, sinto sua falta e jamais negarei meu amor de filha; estou mais reservada este ano. Vou respeitar meu tempo e refletir sobre a Vida e o Mundo. Tenho praticado para cuidar de minha coluna e continuo frequentando a nossa bruxinha (apelido carinhoso a nossa médica de família). Vou começar aulas de canto, além da astrologia. Estou reaprendendo.

Desejo que você apenas se foque na Luz e vá, sem preocupações do passado que já nos deu a lição devida. Passou. Mas, meu coração ainda bate forte por você, até o Fim.

Vou, aos nanos, me adaptando  à Vida sem você. Um dia, espero sinceramente, te encontrar de novo.

Com todo o amor de filha que existe em meu coração de avó, por ora, me despeço.

Sandra.

Em homenagem póstuma à Maria Alice de Almeida

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