No meio de um surto


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“…Escrevo do meio de um surto. É um sofrimento horrível. Respirar o medo da loucura. Temer o extremo auto-desdém.
Respirar sem ter a certeza da próxima respiração. Como que suspenso de mim mesmo. Como se estivesse por um fio.

Escrevo de um lugar desconfortável que provoca leves tremores pelo corpo todo. Escrevo para me manter aqui e agora.

Pratico com isso o “sincericídio” de me expor num momento como esse.
Estou atravessando uma crise de loucura, que como as outras, vai passar. Se eu não morrer antes que possa publicar essas palavras.

Eu posso descrever o desespero de quem já não sabe a quem endereçar seu Ser. Endereço-me agora, ao desconhecido.

Você me é totalmente misterioso. Mesmo assim busco intercessões nessa relação efêmera. Mantendo-me assim conectado ao mundo e a realidade.

Eu quero a sua aceitação e aprovação. Não importa você quem seja. Quero que justifique esse momento e que se pronuncie com palavras de amor. Preciso aprender urgentemente a me amar de novo.

Estou me apresentando aos poucos, assim como vou retornando pra mim e respirando um pouco mais confiante. Tenho certeza de que foi por causa de nosso tênue vínculo.  Desses instantes que “entreletras” passamos juntos.

Eu escrevo porque assim eu coloco foco naquilo que sinto e dou expressão, diluindo o momento crítico. O corpo não pode ficar parado no meio de uma crise.
Dou-me conta da respiração de novo e dessa vez é para buscar as palavras que fogem e os pensamentos embaçados pelo medo paralisante.

Nesse longo momento de luto e outras “cositas más” tenho me sentido burro. Com dificuldade de organizar pensamentos e expô-l0s satisfatoriamente. Respiro mais e coloco minha espinha ereta.

Quero a sensação de estar conectado comigo e com Tudo. Conceitualmente, eu sei que estou. Mas a sensação física é que me dá a dimensão do que penso.
Eu quero a sua aceitação e sua aprovação. Estou me repetindo. Não estou carente, estou vazio. Cheio de pavor, sem um motivo consciente.

Desde que ela se foi, tenho vivido com medo da Vida. Tenho olhado pra mim e não visto ninguém. Vejo-me compulsivo e sem força de vontade.
Vejo-me como um barco sem rumo. Sem determinação e sem disciplina.

De onde vem a vontade? De que parte ausente de mim? Você sabe a resposta? O medo tem me deixado compulsivo. Fumo cigarros e me detesto por isso. Me julgo e condeno por tudo que faço. Em poucos momentos do dia eu me sinto bem. Em qualquer lugar que esteja, eu estou lá, assim, angustiado. À deriva. Mais parecendo um zumbi.

Mesmo assim eu continuo insistindo na Vida. Escrevo porque quero viver e ir além do existir. Enfrento esse “João Ninguém” e procuro na ação a minha sobrevivência. Vou me validando “aos nanos”, apalpando o caminho na escuridão. Clamando pela Luz em mim.

Por hoje está bom. Espero pela sua resposta. A esperança de me comunicar contigo, me consola. Atravesso vitorioso, mais um momento…”

SMAE
Numa encarnação atormentada em processo de iluminação

 

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